Um “barraco” flutuante vem chamando a atenção de pedestres que utilizam a travessia por balsas entre Ilhabela e São Sebastião. Na embarcação, que está estacionada ao lado do terminal de passageiros em Ilhabela, pai e filha dividem o cubículo, feito em madeira, material de PVC e coberto por lona. A espécie de caixote não tem mais que dois metros de comprimento por alguns centímetros de largura.
O proprietário do barraco, que se identificou como Jurandir Andrade da Cruz, 73, disse que está em Ilhabela há dois anos para realizar uma “pesquisa” sobre algas marinhas. Ele disse ter vindo de Teresópolis (RJ). Apesar do nome bem brasileiro, afirmou ter nascido na cidade de Leipsig-Peutch, na Alemanha, e que conhece mais de 80 países. “Mas no meu RG consta que nasci em Fortaleza”.
Sua aparência, que faz lembrar um mendigo, esconde um homem que demonstra farto conhecimento sobre literatura e fala com desenvoltura sobre assuntos pouco usuais no cotidiano de uma pessoa comum, como telecinesia, genoma, DNA, nano tecnologia, típicos de seriados americanos.
Por outro lado, diz coisas desconexas ao “prever” o futuro, o que vem fazendo sua fama de “maluco”. “Ilhabela vai desaparecer do mapa, pois o mar vai subir devido ao aquecimento global”. Cruz disse que tinha uma vida confortável, até “ouvir uma voz” que teria determinado que ele abandonasse tudo para viver de esmola. “A voz diz que eu seria mais feliz como mendigo. E a voz estava certa”. Ao ser perguntado sobre de quem seria a voz, desconversou.
“Larguei um supermercado que eu tinha na Av. Riachuelo, no centro do Rio de Janeiro. Todo dia levava dois sacos de dinheiro para depositar no banco. Eu bebia Moët Chandon e comia caviar. Hoje consigo viver comendo alimento natural sem precisar de dinheiro, tiro tudo da natureza. Não consumo nada industrializado. Todo mundo come comida envenenada”.
“O anti-Cristo”
Cruz diz ter oito filhos, sendo três mulheres. Uma delas, que tem 37 anos, o acompanha na pequena embarcação. Ele não revelou o nome da suposta filha e ela não gosta de aparecer. Segundo Cruz, ela fica durante todo o dia dentro do pequeno barraco e só sai à praia durante a madrugada para não ser vista.
Aos poucos a história foi se espalhando pela cidade e muitos curiosos se aglomeram no terminal de balsas para tentar vê-los, mas raramente eles saem do barraco, segundo os funcionários da Dersa que trabalham nas balsas. O barraco foi construído de forma que não é possível visualizar seu interior.
Uma dona de casa, que se identificou como Rosa, disse ter saído de São Sebastião às 5h da manhã neste domingo, 21, para conhecer Cruz. “Não sei se ele realmente é louco, vai saber se não é o anti-Cristo, eu acredito nessas coisas, mas geralmente as pessoas fazem vistas grossas e não acrediram”. Ela disse que foi até Ilhabela com a intensão de conhecer a filha de Cruz. “Dizem que ela é linda e gostaria muito de conhecê-la, tirar uma foto com ela, mas ele não deixa de jeito nenhum. Ela é um mistério”.
Na última semana, Cruz foi acusado por alguns moradores de manter sua filha em cárcere privado no pequeno barraco. Ela estaria acorrentada. Ele nega. “A polícia veio aqui, me levou para a delegacia, mais ficou comprovado que ela é mesmo minha filha e que não estava acorrentada”. A Prefeitura de Ilhabela informou que deverá remover o barraco do local nesta semana.
Fotos de Reginaldo Pupo/Agência Facto
